sexta-feira, 14 de maio de 2010

O Inverno Part. 4 (Final)

O homem estava olhando-a animado; como se pressentisse novidades no ar.Sem mais agüentar, ele resolveu ser o primeiro a falar:
- Olá Liah, boa noite menina.
- Boa noite Senhor. – educadamente respondeu a garota.
- Então, virás comigo está noite?
A mesma pergunta.
Todas as aparições desse estranho homem sempre vinham acompanhadas da mesma pergunta: virás comigo? Liah se lembrava que, nos primeiros dias, ela dissera prontamente que não para o estranho. Não chegara nem mesmo a perguntar para onde, ou para que, apenas dissera bruscamente que não iria a lugar algum.Talvez por medo. Todavia, o medo havia se esvaído e, embora agora sentisse certa simpatia pelo homenzinho, ainda não havia feito essas mesmas perguntas. Para onde ele queria levá-la?
Contudo, hoje seria diferente.
Nos últimos dias ela, antes da chegada e depois da partida de Noah, se perguntava o que aquele desconhecido queria com ela, ou até mais que isso; por que não se lembrava dos momentos sem Noah? Onde ela passava todas as noites? E Noah? Algo lhe dizia que aquela estranha figura,agora em sua frente, tinha as respostas.E ela queria essas respostas.
- Senhor, diga-me, para onde queres me levar?
- Menina, aqui não é teu lugar.
- Claro que é – respondeu a garota irritada – não vê? Aqui tenho tudo que amo, e tudo que amo me ama! Aqui é meu lugar.
- Ingênua Liah, não vês? Este é somente o sonho que você inventou para refugiar-se dos males da vida, mas ele se tornou tão real dentro de ti, que quando teve a chance, criou vida própria e te roubou do mundo.
Pela primeira vez, Liah sentira medo verdadeiro do homem.Seria ele louco? Do que estava falando? Sonhos, realidade, invenção? Que bobagens! Ela sabia muito bem onde estava.
- Estas louco.
- Não, estou sóbrio.Por isso vejo muito além do que você vê, Liah. – respondeu-lhe sem se deixar abater pela ofensa da garota. – Olhe ao seu redor Liah, tudo isso,é tudo que você ama e queria. Mas nada é real.Guardamos memórias de sentimentos reais, o que você se lembra desde que chegou aqui?
Dessa vez o pânico a invadia; realmente ela não se lembrava de quase nada desde que chegara aquele lugar, desde que reencontrara Noah, desde que começara a ser feliz.
O homem de roxo sabia que ela estava perdida em pensamentos, totalmente confusa e quis ajudá-la.Sem que ela o contestasse ele prosseguiu:
- Venha comigo Liah, e te devolverei a seu mundo.
Num estalo, ela acordou de seus devaneios ao ouvir a voz do estranho.
- Meu mundo?
- Sim, pequena. A realidade.
- O que encontrarei lá?
- Dor, morte, saudade.
- Ora, por que eu iria para um lugar assim? – respondeu em tom levemente sarcástico.
- Porque esses são apenas os contras. Lá você também terá amor, família, e vida. Terá mais que dias frios e nublados de inverno, terá sol, chuva,e um céu estrelado. Além disso, terá memórias, e sentimentos mais complexos. Pessoas à esperam, Liah.
Família? Vida? Será isso que ela precisava? Uma coisa era certa; os últimos dias naquele lugar não haviam sido tão felizes. Noah, a neve...eram maravilhosos, mas faltava algo, e Liah não sabia o que. Talvez fosse isso? Aquele não era seu lugar? Sentiu-se tentada em dizer logo um ‘sim’, queria ir para essa tal realidade. Mas hesitou.
- E se eu não quiser? Se eu desejar ficar aqui para sempre?
- Se desejar isso, menina, virei ainda assim te visitar.
- Todos os dias?
- Todos os dias, até desistirem de você.
- Como assim?
- Você não entendeu não é? Isso – disse apontando para tudo que havia em sua volta – é a casa de sua alma. Você se nega a voltar para a realidade, mas ela não existe sem você. Quando as pessoas que te amam pararem de lutar por você,lutar pare que você volte, então não haverá motivo para que eu a visite.Sua alma viverá eternamente neste lugar.
- Entendi.
Apesar de confuso, ela realmente entendera. Não havia outra explicação para isso tudo. Ela tinha que decidir: ou ela voltaria a vida real, ou passaria todo o sempre naquele sonho. Mas ela gostava do sonho, gostava do frio, e gostava de ter Noah por perto.Porém, ‘toda a eternidade’ era tempo demais para se passar ali.
- Ainda terei Noah quando voltar?
- Talvez.
- Não pode me dizer com certeza?
- Liah, a realidade não lhe da certezas. Você é quem deve conquistá-las.
Um suspiro.
- Tudo bem, eu vou.
- Ótimo. – disse o velho tirando sua cartola e a cumprimentando pela sábia decisão. – Feche seus olhos, quando eu disser...
- Espera! – disse rapidamente Liah.
- O que foi? Não vai voltar atrás, não é? – respondeu o homem assustado com o grito da menina.
- Não, eu só queria fazer uma coisa antes...
Liah deitou-se na neve. Fechou os olhos, e realizou sua velha vontade: agora, com braços e pernas em movimento, a menina fazia um anjo no chão coberto por neve.

[...]

Suas mãos estavas prestes a segurar a maçaneta quando o garoto ouviu um barulho, era um dos aparelhos; apitava absurdamente e desesperadamente alto.Ele olhou rapidamente todos: era aquele ligado ao seu pulso que apitava, aquele que marcava seus batimentos cardíacos. Se aproximou da cama, olhou para a garota, e para o aparelho: estava subindo, o coração dela estava batendo mais rápido! Sem saber o que fazer, segurou-lhe a mão forte.
- Algum médico por favor! Aqui!
Seus olhos ainda estavam nela, as mãos unidas na única mão livre, e ele então viu: os olhos da garota agora se abriam lentamente, ela estava finalmente acordando.
Sua cabeça doía; seus braços estavam cheios de agulhas; sua vista embaçada e a garganta anormalmente dolorida e seca.Mesmo assim, ela teve forças para dizer baixinho e sufocadamente o nome dele:
- Noah...
- Sim Liah, eu estou aqui.
Noah tentou controlar a emoção, tentou controlar o sentimento que agora nascia no seu peito: felicidade. Ela estava viva, estava bem, havia acordado.Tudo iria melhorar. Mas era demais para ele agüentar, tinha que colocar aquilo para fora: deixou então as lágrimas escorrerem por seu rosto.Lágrimas,que agora, não eram mais de angustia, nem medo; eram alegria liquida.
- Obrigada.
- Pelo o que? – perguntou o menino confuso, não estava entendendo nada.Será que Liah estava delirando?
- Por ter lutado por mim. – respondeu com um leve sorriso.
As portas se abriram, Dr. Baker e a Sra. Kennedy entravam.
- Minha filha, eu sabia que você voltaria, ah meu amor...
Mas Liah não ouviu o resto.Estava distraída olhando atentamente o médico; ele lhe era estranhamente familiar.Havia visto ele em algum lugar,mas onde? Seus olhos, sua barba...Claro, era ele o homem da cartola  preta, era ele.Ela tinha certeza.Usava agora roupas brancas, diferente dos seus sonhos.Porém ela havia visto tantas vezes aquele homem que era impossível não reconhece-lo. O homem de roxo.


[...]

- Senhor Desconhecido, mais uma coisa, antes de eu ir, me diga, qual seu nome?
- Por que querer saber menina?
- Para lhe agradecer, gentil Senhor.
- Pois bem, pode me chamar de Vida.


Iza Costa

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Provas

Todos vivem pedindo provas de amor, de amizade, de companheirismo ou fidelidade.Provas que mostram sua importância,e significado. Esperam grandes ações, grandes feitos dos outros em reconhecimendo de seu valor.
Sempre achei esse pensamento de que, 'o amor se mostra nas grandes ações' algo muito imbecil.Penso bem ao contrário; não são as grandes ações que mostram a importância de alguém, e sim os detalhes.As pequenas atitudes e palavras do dia a dia, simples demais até para serem chamadas de relevantes.
Namoradas e namorados esperam ursos gigantes, bombons enfeitados, buquês de flores ou presentes caros em prova de amor ao invés de aceitarem como presente o simples caminhar de mãos dadas; os beijos,abraços e carinhos; o calor do corpo; as flores roubadas nas árvores das ruas; os bombons simples mas que, ao ser divido, se torna algo especial.
Amigos esperam também coisas materias, esperam apoio mesmo que em algo errado, dinheiro e carro emprestados, ou que permaneçam juntos 24 horas por dia.Assim, se esquecem do ombro amigo que sempre lhe ouviu; dos conselhos dados de bom coração; das tardes de conversa e brincadeiras; dos vários momentos que passaram juntos, unidos, seja por choros ou sorrisos.
Filhos esperam que seus pais os deixem fazer o que bem entendem, querem tudo quando pedem, brigam, esperneiam, fazem birra; dizem que seus país não fazem nada por eles, não os amam.Deixam de lado as noites que passam acordados por seu filho estar doente, do quanto já gastaram com médicos ou roupas, ou alimentos.Que se esforçam todos os dias para dar a eles tudo que querem, na medida do possivel.Ou ainda, o quanto se preocupam para deixá-los livres por aí, nesse mundo tão malvado.
Então eu me pergunto; não haveria mais amor se essas pessoas soubessem esperar menos dos outros? Talvez, não seja o problema esperar.Talvez , seja apenas achar que se, não fazem tudo isso, é sinal que não as amam.
Amam sim, amam muito.Mas amor não é só feito de atitudes majestosos e brilhantes; amor é simples, é humilde.Ele se importa mais com a presença, com o bem estar do que com o dinheiro e o futil.Ele está mais presente nos gestes pequenos e que fazem a diferença do que em dezenas de presentes.
Quem espera as atitudes heroicas e grandiosas se esquece que não se vive do célebre, mas sim do singelo que cria e fortalece laços, que une, que faz nascer o verdadeiro amor.
As entrelinhas sempre foram mais dificeis de serem lidas, mais complicadas, porém sempre reservaram boas surpresas.
Feliz aquele que conseguir lê-las.

Iza Costa

Ps: tirei essa foto no meu quintal. *-*

O Inverno Part. 3



O céu nublado agora se misturava com o crepúsculo; não era mais cinza e sem vida, era vermelho, em algumas partes era tão intenso que lembrava fogo. Um fogo vivo, majestoso, impagável.
Por mais bonito que fosse, Liah não gostava dele.Era aquele o sinal de que o momento de Noah ir embora havia chegado. Desde que começaram a se encontrar naquele parque, todos os dias, ao pôr-do-sol o garoto a deixava. A garota só perguntara uma vez o porque disso...
- Noah, você tem que ir embora mesmo?
- Sim Liah, eu devo.
- Mas...por que justo no pôr-do-sol ? Ele é tão lindo, queria vê-lo com você!
- Nós teremos todo o tempo do mundo para ver o sol nascer e se pôr um dia Liah, só precisamos esperar.Até lá, tenho que me despedir dessa maneira.
A resposta não havia sido clara, tampouco satisfatória, mas ela não queria brigas.Não queria contrariá-lo, desde que ela o visse todos os dias, por ela, tudo bem ele ir embora naquele momento.
Então ele se foi, e ela novamente se sentou no balanço, sozinha, e fitou o céu.Não era somente cinza e vermelho, também era assustadoramente negro.Sentia um pouco de frio agora, mas não era somente pela neve; ela sempre se sentia assim quando Noah ia embora. Como se ele levasse consigo o calor do corpo da menina; seu sangue; seus pensamentos; seu coração. Não existia vida sem ele por perto. Liah só se lembrava dos momentos em que estava com o garoto; o resto, era apenas um borrão indecifrável em sua memória.
Apesar disso, ela sabia bem o que aconteceria agora.
Ele apareceria.
Olhou para o céu e viu os pequenos raios que anunciavam a chegada do estranho; e rapidamente se postou de pé para recebê-lo, mas era tarde: ao abaixar a cabeça ela percebeu que ele já estava ali, a poucos metros a sua frente, a examiná-la.
 O homem já lhe era familiar; usava um sobretudo preto, calças pretas, sapatos pretos, e uma cartola preta, apenas sua camisa era diferente; roxa. O mesmo roxo que aparecia no céu quando ele vinha aos fins de tarde. Ele tinha um olhar compreensível e seu rosto parecia sempre estar calmo; apesar disso, era um tanto estranho. Não era novo, mas não era velho demais. No máximo, seria seu pai.Possui-a uma barba cinzenta rala, menos no queixo.Lá ela era um pouco maior, daria para fazer tranças, pensou uma vez a menina.
Trazia sempre um bastão que, ora brincava em suas mãos, ora servia de apoio no chão.
Ao todo, um homem misterioso, pavoroso e encantador.

[...]

Após uma longa discussão consigo mesmo, o rapaz decidiu entrar no quarto.Em silêncio, caminhou até o lado esquerdo da cama onde a garota estava deitada, e a observou.Ela era como ele havia imaginado; não excepcionalmente bonita, muito menos feia, apenas bela.Mas todos aqueles canos, agulhas e aparelhos em sua volta e pele estragavam tudo.Procurou sua mão sobre a cama, mas ela estava repleta de agulhas: uma injetava soro, as outras vários tipos de remédios; calmantes, anestésicos, qualquer tipo de droga que não a fizesse sentir dor.
Haviam algumas ataduras ainda do acidente; machucados não cicatrizados pela falta de reação dela, pensou enquanto dava a volta na cama.
Ao lado direito, sua mão estava livre.Meio sem jeito, o garoto levou suas mãos junto a dela, cobrindo-a, protegendo-a.Reparou então no rosto da garota, não havia dor ali, nem tristeza.Aliás, não havia nada.Aparentemente, nem uma alma.
Foi o pensamento que o invadiu naquele momento; fria, sem sentimentos e sem vida, como uma estátua. Um recipiente vazio. Onde estaria seu conteúdo?
Ainda segurando sua mão, ele aproximou seu rosto do dela, tinha esperança de que ela reagisse a proximidade, mas nada aconteceu. Seus lábios já estavam perto de seus ouvidos, então baixo, como que sussurrando para o coração suas palavras saíram envolvidas por amor:
- Queria ver seus olhos.Queria ver a vida em você, menina.


Continua.

Iza Costa

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Inverno Part. 2


A mulher havia parado de chorar. Um ou dois copos de água com açúcar a acalmaram,  juntamente com um comprimido de calmante e a ajuda do doutor.Ele, homem de bem, sentia muita pena daquela mulher que agora,praticamente, morava no hospital.Mais que isso, sentia simpatia por aquela mulher batalhadora que não perdia suas esperanças, mesmo sozinha, mesmo sem motivos para ainda as tê-la.
- Diga-me Dr. , como ela está? – foram as primeiras palavras a saírem de sua boca ao colocar o copo com água ao lado da janela de vidro.
- Srª, estamos fazendo todo o possível, porém ela não está respondendo aos tratamentos.Já tentamos tudo; remédios, alguns até perigosos, equipamentos modernos, terapias diversas, mas não ouve resposta.Temo que seu estado seja irreversível.
- Não, não pode ser. Ela vai acordar!
- Elena, escute: - pegou firmemente em seus braços e a vez encara-lo – já se passou mais de dois meses; e ela não reagiu a nada! Já passou o tempo em que seu coma era considerado reversível, é quase nula as chances dela voltar. Nós,médicos, não conseguimos achar um motivo para ela não acordar, todos exames foram feitos, e nada.Nada cientifico, nada médico, nada explica o porque de ela ainda não ter acordado. Está na hora de você começar a aceitar isso, por pior que seja, talvez ela não volte para casa.
Com essas palavras, sua fé morria um pouco mais.Não dava para agüentar tudo aquilo; o acidente; a perda de seu marido e agora sua filha,sua única filha.O que ela faria da vida sozinha? Não, ela não desistiria.
- Ainda há chances Dr. ?
- Poucas, devo dizer.
- Então não desistirei, estamos falando da minha filha. Não irei desistir! – sua voz saiu confiante e seu rosto severo, a melhor máscara que conseguia por naquele momento.

[...]

A tarde passava como todas as outras.Noah e Liah haviam passado um bom tempo sentados conversando sobre os mais diversos assuntos; música, livros,o lugar onde estavam...
Quando cansavam, ou simplesmente as palavras não eram mais necessárias, levantavam dos balanços , davam as mãos, e andavam sobre a neve fofa do parque; sem dizer muita coisa, apenas juntos.Apenas sentindo o calor de suas mãos entrelaçadas, e observando tudo ao seu redor.Era tudo perfeito.
Perfeito demais para ser real, Liah pensou uma ou duas vezes.
Um tempo atrás, não sabia bem quando, Noah estava longe em corpo e alma.Eles não se viam ou sentiam, apenas conversavam, pior que isso; ele não a amava.Ela se lembrava também das várias brigas que tiveram, de sua voz furiosa, se suas palavras ásperas, e do fim que haviam tomado.Havia passado dias olhando a foto dele em seu diário; os cabelos pretos sobre os olhos, a cara de bravo, e seus olhos negros brilhando...
Passado.
Agora ele caminhava ali , ao seu lado, de mãos dadas.Seu rosto não possuía mais ira, somente carisma.Sua voz era doce como mel, e as palavras melódicas como música.Ele não a magoaria, ela tinha certeza disso.

[...]

- Olá, vim visitar a Srt. Kennedy.
- Segundo quarto a direita nesse mesmo corredor, numero 402. – respondeu a enfermeira sem prestar atenção em quem lhe falava.
- Obrigado. – disse o garoto educadamente e saiu pelo corredor em direção ao quarto.
Estava sério, preocupado. Devia conhecer a garota a um bom tempo, alguns anos pelo menos. Andava imponente pelo corredor ,conseguindo os olhares de algumas garotas que aguardavam para serem examinadas na sala de espera.
Daqui 3 portas estaria perto dela; agora 2 ; depois 1... agora apenas A porta lhe separava dela.A mão estava na maçaneta, ainda hesitando abri-la.Percebeu o vidro que dava para o quarto, e foi até ele.
Lá estava ela.
Olhos fechados, a pele mais branca do que o normal, e aqueles aparelhos. Era demais para ele ver aquilo; como se cada agulha no corpo dela representasse uma em seu coração.Se sentia sufocado; sem se dar conta apoiou-se no vidro a sua frente e deixou as lágrimas caírem. Agora ele conseguia respirar; o que sufocava seus pulmões era o choro que vinha de dentro, forte, triste e impiedoso.
‘Se ao menos eu estivesse aqui antes...’

Continua. 

Iza Costa

Carta

 Sr. Meu Melhor Amigo,

Uma vez me disseram que não é possivel existir amizade entree homem e mulher, que sempre haveriam segundas intenções.Particularmente, eu descordo.Mas entre nós, esse foi o caso.
Talvez não no começo. Quando eu te via,quando nos conhecemos, eu te achei um cara legal e só.Só outro amigo.O tempo passou, e aquela amizade que começou por acaso, de brincadeira cresceu.Como cresceu.
Foi impossivel não me apaixonar por você.
Não é todos os dias que encontro alguém que me entenda por aí, muito menos que se importante tanto comigo.E você se importa tanto; sempre cuidando de mim; sempre me ligando e me perguntando como estou ou me ouvindo chorar ao falar sobre minha vida sem graça.
Sem graça sem você, pelo menos.
Então quando estou chateada em casa, você me liga e saimos, e ao ver seu sorriso, o mundo já se torna muito mais bonito e convidativo para mim.As vezes, atpe andamos de mãos dadas, feito um casal.
Como você queria que eu não me apaixonasse?
Seu cheiro, seu calor, seu abraço.Alias, o melhor abraço do mundo. Aquele que faz o mundo em baixo dos meus pés parar, ou simplesmente me faz fluturar, eu me sinto em casa nesse abraço, como se encostada em seu peito fosse o meu lugar.
Mas confesso, que o que me fez me apaixonar mesmo, foi seu olhar e seu sorriso. Ah esses dois, sempre penso que vou enfartar quando os vejo. Sempre brilhantes, felizes, sempre me olhando com ternura.Eles me dão vida.
Ou talvez tenha sido aquele dia do cinema. Era tarde e eu havia saido com uma blusa muito fina, então você me deu sua blusa de frio.Não queria aceitar, mas você insistiu tanto que não tive como negar.O seu perfume naquela blusa eu nunca vou esquecer.
O ciumes então, não precisar nem falar. Toda vez que você diz que vai jogar futebol com os amigos, eu ficou realmente irritada.Não por eles, mas por todas aquelas menininhas te olhando jogar sem camisa.Ou quando você faz novas amizades, me da um medo de te perder, medo que você não precise mais de mim do seu lado.

Desculpa te dizer tudo isso agora, mas é que eu realmente precisava.Essa história não está dando mais certo.Eu preciso de você, não como meu amigo, mas como meu amante, namorado, marido, etc. Entende? É precisar, e não mais querer. Por favor, de uma chance para nós, e eu sei que seremos felizes. Nunca acreditei em finais felizes, mas você me deu esperança de achar o meu, e ele está com você.

Fica comigo? :x

Ass: quem mais te ama.

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Inverno


 Havia neve no chão do parque.
Folhas secas se misturavam com o branco em baixo das árvores nos brinquedos.Não tinha ninguém ali, fora a garota.
 Estava sentada no balanço olhando distraidamente o céu nublado.Talvez inconscientemente, dava pequenos impulsos, ora com o pé esquerdo,ora com o direito. Usava um casaco preto e uma saia acompanhada de meias que iam até seu joelho e possuíam detalhes vermelhos que combinavam com o pequeno laço em sua sapatilha.Protegendo seus cabelos negros da umidade, uma boina também vermelha.A roupa, ao todo, lembrava o uniforme de algum colégio.
Aparentemente estava feliz, seus olhos castanhos tinham brilho; e seus lábios levemente rosados pareciam imunes a temperatura baixa dali. Segurava o balanço com força, apesar de não ter medo de cair.Era só para ocupar as mãos, e essas faziam um contraste bonito com as correntes de ferro.
Mesmo com a neve, a garota não sentia frio. Gostava muito daquele clima gelado, apesar de não viver nele a algumas semanas atrás.
As vezes, se lembrava de quando era criança e desejava fazer anjos no chão de neve e não podia.Mas agora havia neve ali, em todo lugar. Ela se sentia tentada a realizar esse desejo, porém isso desarrumaria sua roupa e cabelos naquele momento, e ela não podia se dar a esse luxo pois estava a esperar alguém.

[...]

A mulher agora olhava atentamente para o quarto atrás do vidro; no seus olhos cansados e em seu rosto repleto de pequenas rugas, se via uma mistura de esperança e medo.
Quase não piscava ao contemplar a garota na cama. Qualquer um diria que ela apenas dormia se não fosse os vários aparelhos ligados ao seu corpo, e o homem de avental branco que estava ao seu lado examinando-a.Estava sério, com toda certeza possuía anos de experiência.Mexia atentamente em alguns botões nos aparelhos; girava para lá e para cá outros; sentia o pulso da garota; sua respiração fraca. Claramente não estava satisfeito com as conclusões em que havia chegado.
A mulher do lado de fora ainda observava atenta, não queria perder nenhum detalhe.Ao olhar para o médico sentiu algo estranho,sentiu uma onda de desespero a invadir; sabia que as noticias não eram boas.Logo, se perdeu em pensamentos, a agonia a tomava novamente; a dor de não saber o que iria acontecer com a garota no quarto atrás do vidro.
Sem que percebesse, o médico já estava ao seu lado, a observando e desejando ter boas noticias para lhe dizer, mas não tinha.
- Então Dr. ? Como ela está? O que está acontecendo? Eu quero minha filha de volta! – e aos prantos se deixou cair na cadeira que estava ali perto, as mãos tampavam seu rosto, e ainda assim o som do choro e as lágrimas caindo eram perceptíveis.
O médico colocou a mão em seu ombro, ele também estava desconfortável com aquilo. Se sentia incapaz ao ver a garota na cama, como se todos seus anos de experiência nada valessem.

[...]

- Pontual como sempre Noah. – era a garota no balanço. Sua voz era calma e gentil, claramente feliz pela chegada do garoto.Suas palavras saiam acompanhadas de um sorriso no canto esquerdo, que a deixava ainda mais jovial e bonita.
- Não ousaria me atrasar para te encontrar Liah. – respondeu enquanto se sentava no balanço vazio ao lado da menina e envolvia seus braços nas correntes.Dava pequenos impulsos para manter-se em movimento.
- O dia está bonito, não está? Sinto dentro de mim que o inverno está acabando, é como se eu visse as flores se abrindo e o sol aparecendo novamente. Algo mais que neve.
- Receio que sim, mas não gosto disso.
Liah o fitou por alguns segundos. Ele usava a mesma roupa dos últimos dias; vestimentas inteiramente pretas, menos os botões. Eles eram pratas e, mesmo sem muita luz, reluziam como se possuíssem brilho próprio. O rosto do garoto estava voltado para baixo, e ele parara de balançar.
- Por que diz isso?
Ambos olhos negros agora se olhavam, perdidos.Um queria respostas, o outro, queria evitar ter de responde-la, mas não podia.Era sua obrigação sempre lhe contar a verdade, era seu melhor amigo.Sua única companhia.
- Quando o inverno acabar,Liah, não vai mais precisar de mim aqui.
Ainda que triste com as palavras ditas, Noah apenas sorriu.

[...]

Continua.

Iza Costa

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O Jogo Part. 3 (Final)

- Do que você está falando?
Não teve muito tempo para explicações, as amigas da garota já saiam de três carros estacionados por perto.Eram cinco ao todo, contou rápido o garoto.Prontamente ele reconheceu quatro das que estavam agora paradas a lhe olhar; algumas de sua extensa lista.
- Mari? O que é isso? - disse sem reação, sem entender o que se passava ali naquele momento.
- Isso - disse a garota de vestido vermelho acima do joelho e cabelos negros - é uma pequena vingança nossa.
Ele olhou novamente para Mari; perplexo. Ela sabia de tudo desde o começo, havia fingido todo o tempo.Um plano estupido que agora o partia o coração, sentia-se um completo imbecil.
- Ora, ora...está tristinho é? Coitadinho. - acabara de falar a garota de roupa apertada que saira do carro preto, acompanhada de um sorriso malicioso.
- Vocês não podiam...- disse com a cabeça abaixada, pensativo sobre aquela situação toda, aquela bagunça que ele criara.
- Por que não? Não é isso que você e seus amigos sempre fizeram? Mas, sem mais delongas, vamos embora garotas.
Sua cabeça levantou ao encontro da garota, a sua garota.Ela acenou negativamente,um pequeno movimento em seus lábios apareceram mas cessaram rapidamente.Ele olho em seus olhos; por um momento exitou falar, ela havia brincado com ele todo esse tempo; ele que passara noites inteiras olhando para o teto e pensando naquela garota que o tirava o sono, deixara de sair com os amigos; aguentara brincadeiras sem graças de todos, para isso. Não podia ficar calado, tinha que dizer algo, tinha que xingá-la, faze-la sentir-se como ele agora se sentia; em pedaços.
- Mari!
Apesar de apenas um nome ter sido dito, todas as garotas o encararam. Esperando o que quer que ele fosse dizer; no minimo alguns insultos.
- Olha, eu devia praguejar palavras horriveis agora; e te fazer sentir a pior pessoa do mundo.Mas não vou.Não vou,não somente porque sei que eu comecei isso tudo, mas também por não conseguir.Nunca diria algo para você que te machuca-se.Tudo que eu disse, foi verdadeiro.O jogo acabou no momento em que te conheci.
Via-se em companhia dessas palavras um pequeno sorriso, aquele meio constrangido e meio sem rumo que ela havia visto várias vezes naquele bar.
Mari pensou em correr até ele, em abraça-lo e pedir desculpas, entretando se conteve.Ele merecia aquilo.

[...]

Ele tentou voltar a vida 'normal' dele.Fazer as coisas que fazia antes, sair com os amigos, 'pegar' outras garotas; mas sem sucesso, nada daquilo tinha graça agora.Então desistiu.
A garota ainda não saira da cabeça dele.
Haviam se passado 3 semanas: parou de sair com os amigos, de beber mesmo indo aquele bar todo o sabádo para procurá-la.Andava triste.Apesar dos motivos para ter raiva, ele queria vê-la, queria perguntar se tudo aquilo era mesmo somente uma mentira, os olhos dela eram tão sinceros, e seu sorriso.Era improvável que fosse tudo armação.Ele nunca havia sentido aquilo; aquela vontade de estar com alguém, mesmo com tudo aquilo acontecendo.
Por outro lado, uma voz gritava perturbadoramente para que ele a esquecesse, que ela havia feito ele de idiota, e que tudo não havia passado de uma farça.Mas a vontade de encontrá-la era maior, mesmo com aquele resentimento, ele queria falar com ela novamente.

[...]

Era sabádo.Dia de ir novamente aquele bar e procurar o que ele tanto queria; respostas.
Todos os sabádos haviam sido iguais, somente decepção o aguardava naquele balcão, mas nesse, foi diferente.
Lá estava ela, parada, olhando a pista.Os cabelos pretos brilhando nas luzes da boate, a calça apertada e aquela mesma blusa em V.
Ele sentiu seu corpo arrepiar, agora que ela estava ali, a situação parecia mais complicada do que ele imaginara.Mesmo assim, se aproximou e sentou ao seu lado no balcão, pediu uma bebida e a olhou.Ela sabia que ele estava ali; sabia que ele a olhava, mas mantinha seus olhos em um casal que dançava no meio da pista.Esperava que ele falasse algo, se manifestasse.Algo lhe dizia que ele a xingaria de todos os nomes possiveis, ainda assim ela queria ouvir a voz dele.
- Mari, me perdoa?
Ela se assustou com a sua fala.Perdão? Como assim ele lhe pedia perdão? Ela que havia mentido e enganado a todo momento naquele lugar.
- Por que diz isso?
- Se não fosse esse Jogo estupido, não teria sido assim.Eu te encontraria, e dançaria com você a noite inteira, e só teria olhos pra você , como tenho agora, mas ninguém atrapalharia.Não haveria nada que nos impedisse que ficarmos juntos.Nada, a não ser, que você não quisesse, e eu entenderia.Por que você iria querer alguém idiota como eu?
- Realmente, não sei porque iria querer alguém idiota como você...- e parou para olha-lo, ele abaixou a cabeça meio constrangido com as palavras dela - entretando, eu quero. E não me pergunte o porque. Na primeira vez que te vi, eu senti isso que sinto agora, era real, mas me convenceram a entrar nisso, me conenceram que eu seria mais uma.Não acreditei em você, e me arrependo. Tudo que aconteceu, foi real.Juro.
Finalmente, eles se olhavam. Finalmente, os mal entendidos haviam sido resolvidos...ou quase. Ela sorriu, e voltou a olhar para o casal.
- Seus amigos não vão gostar que você saia da brincadeira.
- Eles vão entender, se não, eu estou disposto a arriscar.
- Ora,ora... então você é oficialmente agora um homem de uma mulher?
- Acho que sim...
- Acha? - disse com levantando a sombrancelha direita e usando uma voz de repreensão.
- Sim, eu sou. - e sorriu.
Sorriu feliz da escolha que fazia, feliz por não ser mais um cara detestável e feliz, por finalmente, ter encontrado a garota dos seus sonhos.
Nesse meio tempo desde que a conhecera, ele pensava nisso constantemente: na paixão, no envolvimento, no amor. Foi nesses pensamentos que ele descobriu que nunca fora completo de verdade, que toda essa brincadeira não passava de uma distração, de medo do que podia acontecer se um dia se entregasse para alguém, mas o dia havia chegado e ,de longe, era tão assustador como ele imaginara.Agora ele tinha paz, tinha um porto seguro, alguém para voltar e estar sempre do seu lado, alguém que ele realmente gostava.
Seria estranho todas essas mudanças repentinas, mas ele com certeza se acostumaria com o tempo.Mudanças boas são sempre bem vindas.
Não sentiria falta da sua velha vida porque ser livre é totalmente sem sentido quando não se tem um lugar para voltar.
Algo lhe dizia que daria certo, e se não desse, ao menos ele saberia agora o que é ser duas pessoas batendo em um só coração.Sabia ao menos uma coisa; a vida que ele tinha antes não voltaria, nunca mais ele faria algo do tipo com alguém, descobrira da pior forma o que era um coração ferido, e dá melhor, o que era o amor.

Fim

Iza Costa