Desisto de tentar manter a paz entre nós, pois sei que ela nunca virá. Desisto de tentar te falar e mostrar, a todo momento, o que quero e preciso e você não entender. Desisto de competir por sua atenção. Desisto de ouvir você falando de suas aventuras amorasas e fingir estar tudo bem. Como consegues ser tão cruel assim? Desisto de correr atrás. Desisto de tentar te dar todo meu carinho, apesar de ser o unico a quem eu queira da-lo. Renego nossa amizade. Fujo. Corro de tudo que me lembre ou aproxime de você. Desisto, após tantas brigas, tantas palavras de ódio sem sentido, sem razão. Palavras que não deviam ter sido pronunciadas, palavras sem real verdade. Desisto de tentar me fazer presente mesmo com a enorme distância que nos separar e também de aceitar esse seu jeito insolente de me tratar.
Será que só quando as coisas vão mal você me da valor?
Não dá pra viver assim. Haja lágrimas para cairem todas as noites, haja tempo e falta de orgulho para te seguir. Haja solidariedade para te dividir.
Desisto de fazer tudo por você e mal receber um obrigado. Desisto de ouvir tantas palavras de carinho e tão poucos gestos. Desisto de ser a última opção. Desisto de esperar você notar que estou aqui, de coração aberto esperando você querer para mover montanhas e céus por nós.Assim como desisto de perder noites de sono, ganhar pesadelos e perder a cabeça.
Desisto de me importar se seu dia foi bom e como andam as coisas, e de perguntar sempre como você está. Desisto de te ensinar a ser alguém melhor.
Depois de tudo isso, eu só tenho que dizer: muito obrigada por tudo, mas chega.Eu desisto de você.
Então, alguns dias atrás, eu parei para observar minha vida e percebi que estava tudo muito errado. As pessoasm outrora inseparaveis e insubstituiveis, haviam sumido. Aliás, muitas pessoas haviam sumido. Muitas decisões, algumas de extrema importância, batiam na minha porta insistentemente e eu não sabia o que fazer. Ir ou ficar. Aceitar o presente, esquecer o passado, ignorar as pessoas e acontecimentos ao redor. Não foi fácil.
Não era dor, não era medo, era só a ausência de todo e qualquer sentimentos. A angustia de não saber como seguir.
Aí, já sem muitas boas alternativas, eu decidi recorrer ao passado; voltar a costumes. E se algo bom pudesse acontecer novamente? Se eu, com meu medo de levantar e seguir, decidisse apenas retornar pela estrada que já conhecia? A ideia, confesso, foi péssima. Não só a parte ruim da mesma história aconteceu, como também, foi catastrófico todo o resto.
Sem passado, perdida no presente e sem saber sobre o futuro.
Por ultimo, agora em total desespero, minha melhor resposta foi apenas deixar certas coisas acontecerem. Evitar os maus, acolher os bons. Não ser muito feliz para não atrair a tristeza, não ser muito triste para não afastar as pessoas. Ser eu mesma não sendo, pois, ainda não sei muito bem quem sou.
As coisas estão mudando, e isso da medo. Mas tudo tem que mudar. Não se sabe o que virá depois de algumas mudanças para pior, afinal, há males que vem para bem.
Ficar me chatiando a toa, ou brigando, ou me estressando é algo que saiu dos meus planos. Estresse causa rugas, e pretendo chegar aos sessenta sem nenhuma. Amém.
Talvez o melhor fosse esquecer. Então ela pegou sua bolsa e colocou algumas coisas dentro,algum dinheiro no bolso e os fones no ouvido e saiu pela cidade.Não sabia pra onde ía, somente andava.Despreocupada. Olhava o céu levemente escuro e tentava não pensar em nada; nada que fosse ruim; nada que a deixasse triste; mas só por tentar não pensar, acabava pensando. Chutava as pedras da rua destraidamente, talvez fosse seu inconsciente que realmente queria chutar algo; por aquela raiva pra fora, a aflição.As coisas não davam certo nunca, será que um dia tudo se acertaria? Será que a sorte viria ao seu encontro? Ela nada podia fazer mais, apenas continuar andando sem rumo, sem destino, acompanhada somente pela música. Mas a música não ajudava.Naquele momento parecia que todas aquelas canções em seu MP3 eram feitas para ela.Exceto pelo final, nas músicas, ele era feliz. Como o final dela podia ser feliz? Estava sozinha, o dia estava frio e todos os carros ou pessoas que passavam sequer a novatam ali; triste. Não importava o quando ela fizesse, tentasse, lutasse ou amasse; o valor que ela esperava não vinha.Ninguém se importava com as tentativas,fracassos e tombos que ela levava para tentar ser melhor; ninguém retribuia aquele sentimento intenso se querer ser melhor, ver os outros felizes e ser feliz que explodia em seu peito. Ninguém a entendia. Por mais que ela explicasse ou ao menos tentasse, dissesse e gritasse; berrasse e esperneasse; ainda continuavam sem entender. Entender que tanto choro era mais que simples carência; era necessitade de ser notada! Necessitade de se sentir indispensável, de saber que alguém a esperava, a compreendia; saber que alguém sempre estaria ali. Já era noite e ela não sabia bem aonde estava, mas não importava. A rua era grande e bem iluminada, não havia perigo ali.Na direita um supermercado e em sua frente estacionado, um carro com um casal de velhinhos entrando; ela sorriu. Era bonito ver aquela cena,mesmo com os tantos anos juntos que deviam possuir, ele ainda abria a porta do carro para ela e lhe dava a mão de apoio para que a Senhora entrasse. Por alguns segundos ela desejou ser aquela idosa, saber o que ela sentia.O que era ser realmente amada. O pensamento passou rápido e a garota continuou a andar.Mais a frente havia um barzinho com alguns universitários.Decidiu então entrar e se sentou ao galpão.A sua direita, em três mesas juntas, uma turma sorria e conversava feliz.Pareciam amigos de vários anos, talvez, amigos de infância.Alegres, risonhos, despreocupados. A bateria do seu MP3 estava quase acabando e ela ainda tinha que voltar para casa.Tomou um refrigerante e saiu, agora possuindo um rumo,ainda que indesejado. Dessa vez não tentou esquecer seus pensamentos, ao contrário, forçava-se a lembrar seus erros e acertos, a examinar os motivos que a levaram caminhar sozinha pela noite escura. Se sentia estranha. Parecia que seu interior estava vazio, e não era fome. Era uma angustia que a deixava mal, mas mesmo assim, ela não se deixava abater. Talvez ela estivesse errada mesmo, exigindo demais das pessoas.Mais do que elas podiam lhe dar.Talvez ela também fosse muito possessiva, e nervosa.Ou ainda, ela fosse anormal.Somente se culpar não era certo, e também, nada adiantaria.Tudo continuaria do mesmo modo. Foi quando ela parou nesse pensamento; e se não mudasse ? Se fosse sempre aquilo? Coincidência ou destino,não sabia ela qual dos dois, nesse momento começava outra música em seus fones: 'Mas é claro que o sol vai voltar amanhã, mas uma vez eu sei.Escuridão já vi pior, de endoidecer gente sã, espera que o sol já vem.Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem, ou que seus planos nunca vão dar certo, ou que você nunca vai ser alguém.Tem gente que machuca os outros, tem gente que não sabe amar, mas eu sei que um dia a gente aprende.Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo.Quem acredita sempre alcança...' Era aquele tapa na cara que ela precisava. O que ela estava fazendo? Deixando os outros decidirem como ela se sentiria? Não, não deixaria isso acontecer. Ela era melhor que aquilo tudo.E de algum modo, ela sabia que o sol realmente voltaria. A vida dela havia sido assim por muito tempo: noites escuras alternadas com dias ensolarados. Talvez aquele fosse só um pequeno eclipse antes de outro dia de verão; as coisas iriam melhorar.Ela era forte. Forte o bastante para esperar dia após dia que pessoas aparecessem e merecessem tudo o que ela estava disposta a dar, e que também fizessem o mesmo. Outro estalo lhe passou a cabeça; talvez aqueles velinhos tivessem se conhecido aos cinquenta anos.Talvez aqueles amigos haviam se conhecido na faculdade ou algo do tipo, talvez ela só precisasse de paciência. Paciência para saber que não se conhece as melhores pessoas quando quer, elas simplesmente aparecem na nossa vida quando paramos de procurar desperadamente. Paciência para cobrar menos, exigir menos, pressionar menos. O sol voltaria, isso era uma certeza. Voltou para a casa cantando uma unica música.
O homem estava olhando-a animado; como se pressentisse novidades no ar.Sem mais agüentar, ele resolveu ser o primeiro a falar:
- Olá Liah, boa noite menina.
- Boa noite Senhor. – educadamente respondeu a garota.
- Então, virás comigo está noite?
A mesma pergunta.
Todas as aparições desse estranho homem sempre vinham acompanhadas da mesma pergunta: virás comigo? Liah se lembrava que, nos primeiros dias, ela dissera prontamente que não para o estranho. Não chegara nem mesmo a perguntar para onde, ou para que, apenas dissera bruscamente que não iria a lugar algum.Talvez por medo. Todavia, o medo havia se esvaído e, embora agora sentisse certa simpatia pelo homenzinho, ainda não havia feito essas mesmas perguntas. Para onde ele queria levá-la?
Contudo, hoje seria diferente.
Nos últimos dias ela, antes da chegada e depois da partida de Noah, se perguntava o que aquele desconhecido queria com ela, ou até mais que isso; por que não se lembrava dos momentos sem Noah? Onde ela passava todas as noites? E Noah? Algo lhe dizia que aquela estranha figura,agora em sua frente, tinha as respostas.E ela queria essas respostas.
- Senhor, diga-me, para onde queres me levar?
- Menina, aqui não é teu lugar.
- Claro que é – respondeu a garota irritada – não vê? Aqui tenho tudo que amo, e tudo que amo me ama! Aqui é meu lugar.
- Ingênua Liah, não vês? Este é somente o sonho que você inventou para refugiar-se dos males da vida, mas ele se tornou tão real dentro de ti, que quando teve a chance, criou vida própria e te roubou do mundo.
Pela primeira vez, Liah sentira medo verdadeiro do homem.Seria ele louco? Do que estava falando? Sonhos, realidade, invenção? Que bobagens! Ela sabia muito bem onde estava.
- Estas louco.
- Não, estou sóbrio.Por isso vejo muito além do que você vê, Liah. – respondeu-lhe sem se deixar abater pela ofensa da garota. – Olhe ao seu redor Liah, tudo isso,é tudo que você ama e queria. Mas nada é real.Guardamos memórias de sentimentos reais, o que você se lembra desde que chegou aqui?
Dessa vez o pânico a invadia; realmente ela não se lembrava de quase nada desde que chegara aquele lugar, desde que reencontrara Noah, desde que começara a ser feliz.
O homem de roxo sabia que ela estava perdida em pensamentos, totalmente confusa e quis ajudá-la.Sem que ela o contestasse ele prosseguiu:
- Venha comigo Liah, e te devolverei a seu mundo.
Num estalo, ela acordou de seus devaneios ao ouvir a voz do estranho.
- Meu mundo?
- Sim, pequena. A realidade.
- O que encontrarei lá?
- Dor, morte, saudade.
- Ora, por que eu iria para um lugar assim? – respondeu em tom levemente sarcástico.
- Porque esses são apenas os contras. Lá você também terá amor, família, e vida. Terá mais que dias frios e nublados de inverno, terá sol, chuva,e um céu estrelado. Além disso, terá memórias, e sentimentos mais complexos. Pessoas à esperam, Liah.
Família? Vida? Será isso que ela precisava? Uma coisa era certa; os últimos dias naquele lugar não haviam sido tão felizes. Noah, a neve...eram maravilhosos, mas faltava algo, e Liah não sabia o que. Talvez fosse isso? Aquele não era seu lugar? Sentiu-se tentada em dizer logo um ‘sim’, queria ir para essa tal realidade. Mas hesitou.
- E se eu não quiser? Se eu desejar ficar aqui para sempre?
- Se desejar isso, menina, virei ainda assim te visitar.
- Todos os dias?
- Todos os dias, até desistirem de você.
- Como assim?
- Você não entendeu não é? Isso – disse apontando para tudo que havia em sua volta – é a casa de sua alma. Você se nega a voltar para a realidade, mas ela não existe sem você. Quando as pessoas que te amam pararem de lutar por você,lutar pare que você volte, então não haverá motivo para que eu a visite.Sua alma viverá eternamente neste lugar.
- Entendi.
Apesar de confuso, ela realmente entendera. Não havia outra explicação para isso tudo. Ela tinha que decidir: ou ela voltaria a vida real, ou passaria todo o sempre naquele sonho. Mas ela gostava do sonho, gostava do frio, e gostava de ter Noah por perto.Porém, ‘toda a eternidade’ era tempo demais para se passar ali.
- Ainda terei Noah quando voltar?
- Talvez.
- Não pode me dizer com certeza?
- Liah, a realidade não lhe da certezas. Você é quem deve conquistá-las.
Um suspiro.
- Tudo bem, eu vou.
- Ótimo. – disse o velho tirando sua cartola e a cumprimentando pela sábia decisão. – Feche seus olhos, quando eu disser...
- Espera! – disse rapidamente Liah.
- O que foi? Não vai voltar atrás, não é? – respondeu o homem assustado com o grito da menina.
- Não, eu só queria fazer uma coisa antes...
Liah deitou-se na neve. Fechou os olhos, e realizou sua velha vontade: agora, com braços e pernas em movimento, a menina fazia um anjo no chão coberto por neve.
[...]
Suas mãos estavas prestes a segurar a maçaneta quando o garoto ouviu um barulho, era um dos aparelhos; apitava absurdamente e desesperadamente alto.Ele olhou rapidamente todos: era aquele ligado ao seu pulso que apitava, aquele que marcava seus batimentos cardíacos. Se aproximou da cama, olhou para a garota, e para o aparelho: estava subindo, o coração dela estava batendo mais rápido! Sem saber o que fazer, segurou-lhe a mão forte.
- Algum médico por favor! Aqui!
Seus olhos ainda estavam nela, as mãos unidas na única mão livre, e ele então viu: os olhos da garota agora se abriam lentamente, ela estava finalmente acordando.
Sua cabeça doía; seus braços estavam cheios de agulhas; sua vista embaçada e a garganta anormalmente dolorida e seca.Mesmo assim, ela teve forças para dizer baixinho e sufocadamente o nome dele:
- Noah...
- Sim Liah, eu estou aqui.
Noah tentou controlar a emoção, tentou controlar o sentimento que agora nascia no seu peito: felicidade. Ela estava viva, estava bem, havia acordado.Tudo iria melhorar. Mas era demais para ele agüentar, tinha que colocar aquilo para fora: deixou então as lágrimas escorrerem por seu rosto.Lágrimas,que agora, não eram mais de angustia, nem medo; eram alegria liquida.
- Obrigada.
- Pelo o que? – perguntou o menino confuso, não estava entendendo nada.Será que Liah estava delirando?
- Por ter lutado por mim. – respondeu com um leve sorriso.
As portas se abriram, Dr. Baker e a Sra. Kennedy entravam.
- Minha filha, eu sabia que você voltaria, ah meu amor...
Mas Liah não ouviu o resto.Estava distraída olhando atentamente o médico; ele lhe era estranhamente familiar.Havia visto ele em algum lugar,mas onde? Seus olhos, sua barba...Claro, era ele o homem da cartola preta, era ele.Ela tinha certeza.Usava agora roupas brancas, diferente dos seus sonhos.Porém ela havia visto tantas vezes aquele homem que era impossível não reconhece-lo. O homem de roxo.
[...]
- Senhor Desconhecido, mais uma coisa, antes de eu ir, me diga, qual seu nome?
Todos vivem pedindo provas de amor, de amizade, de companheirismo ou fidelidade.Provas que mostram sua importância,e significado. Esperam grandes ações, grandes feitos dos outros em reconhecimendo de seu valor.
Sempre achei esse pensamento de que, 'o amor se mostra nas grandes ações' algo muito imbecil.Penso bem ao contrário; não são as grandes ações que mostram a importância de alguém, e sim os detalhes.As pequenas atitudes e palavras do dia a dia, simples demais até para serem chamadas de relevantes.
Namoradas e namorados esperam ursos gigantes, bombons enfeitados, buquês de flores ou presentes caros em prova de amor ao invés de aceitarem como presente o simples caminhar de mãos dadas; os beijos,abraços e carinhos; o calor do corpo; as flores roubadas nas árvores das ruas; os bombons simples mas que, ao ser divido, se torna algo especial.
Amigos esperam também coisas materias, esperam apoio mesmo que em algo errado, dinheiro e carro emprestados, ou que permaneçam juntos 24 horas por dia.Assim, se esquecem do ombro amigo que sempre lhe ouviu; dos conselhos dados de bom coração; das tardes de conversa e brincadeiras; dos vários momentos que passaram juntos, unidos, seja por choros ou sorrisos.
Filhos esperam que seus pais os deixem fazer o que bem entendem, querem tudo quando pedem, brigam, esperneiam, fazem birra; dizem que seus país não fazem nada por eles, não os amam.Deixam de lado as noites que passam acordados por seu filho estar doente, do quanto já gastaram com médicos ou roupas, ou alimentos.Que se esforçam todos os dias para dar a eles tudo que querem, na medida do possivel.Ou ainda, o quanto se preocupam para deixá-los livres por aí, nesse mundo tão malvado.
Então eu me pergunto; não haveria mais amor se essas pessoas soubessem esperar menos dos outros? Talvez, não seja o problema esperar.Talvez , seja apenas achar que se, não fazem tudo isso, é sinal que não as amam.
Amam sim, amam muito.Mas amor não é só feito de atitudes majestosos e brilhantes; amor é simples, é humilde.Ele se importa mais com a presença, com o bem estar do que com o dinheiro e o futil.Ele está mais presente nos gestes pequenos e que fazem a diferença do que em dezenas de presentes.
Quem espera as atitudes heroicas e grandiosas se esquece que não se vive do célebre, mas sim do singelo que cria e fortalece laços, que une, que faz nascer o verdadeiro amor.
As entrelinhas sempre foram mais dificeis de serem lidas, mais complicadas, porém sempre reservaram boas surpresas.
Feliz aquele que conseguir lê-las.
O céu nublado agora se misturava com o crepúsculo; não era mais cinza e sem vida, era vermelho, em algumas partes era tão intenso que lembrava fogo. Um fogo vivo, majestoso, impagável.
Por mais bonito que fosse, Liah não gostava dele.Era aquele o sinal de que o momento de Noah ir embora havia chegado. Desde que começaram a se encontrar naquele parque, todos os dias, ao pôr-do-sol o garoto a deixava. A garota só perguntara uma vez o porque disso...
- Noah, você tem que ir embora mesmo?
- Sim Liah, eu devo.
- Mas...por que justo no pôr-do-sol ? Ele é tão lindo, queria vê-lo com você!
- Nós teremos todo o tempo do mundo para ver o sol nascer e se pôr um dia Liah, só precisamos esperar.Até lá, tenho que me despedir dessa maneira.
A resposta não havia sido clara, tampouco satisfatória, mas ela não queria brigas.Não queria contrariá-lo, desde que ela o visse todos os dias, por ela, tudo bem ele ir embora naquele momento.
Então ele se foi, e ela novamente se sentou no balanço, sozinha, e fitou o céu.Não era somente cinza e vermelho, também era assustadoramente negro.Sentia um pouco de frio agora, mas não era somente pela neve; ela sempre se sentia assim quando Noah ia embora. Como se ele levasse consigo o calor do corpo da menina; seu sangue; seus pensamentos; seu coração. Não existia vida sem ele por perto. Liah só se lembrava dos momentos em que estava com o garoto; o resto, era apenas um borrão indecifrável em sua memória.
Apesar disso, ela sabia bem o que aconteceria agora.
Ele apareceria.
Olhou para o céu e viu os pequenos raios que anunciavam a chegada do estranho; e rapidamente se postou de pé para recebê-lo, mas era tarde: ao abaixar a cabeça ela percebeu que ele já estava ali, a poucos metros a sua frente, a examiná-la.
O homem já lhe era familiar; usava um sobretudo preto, calças pretas, sapatos pretos, e uma cartola preta, apenas sua camisa era diferente; roxa. O mesmo roxo que aparecia no céu quando ele vinha aos fins de tarde. Ele tinha um olhar compreensível e seu rosto parecia sempre estar calmo; apesar disso, era um tanto estranho. Não era novo, mas não era velho demais. No máximo, seria seu pai.Possui-a uma barba cinzenta rala, menos no queixo.Lá ela era um pouco maior, daria para fazer tranças, pensou uma vez a menina.
Trazia sempre um bastão que, ora brincava em suas mãos, ora servia de apoio no chão.
Ao todo, um homem misterioso, pavoroso e encantador.
[...]
Após uma longa discussão consigo mesmo, o rapaz decidiu entrar no quarto.Em silêncio, caminhou até o lado esquerdo da cama onde a garota estava deitada, e a observou.Ela era como ele havia imaginado; não excepcionalmente bonita, muito menos feia, apenas bela.Mas todos aqueles canos, agulhas e aparelhos em sua volta e pele estragavam tudo.Procurou sua mão sobre a cama, mas ela estava repleta de agulhas: uma injetava soro, as outras vários tipos de remédios; calmantes, anestésicos, qualquer tipo de droga que não a fizesse sentir dor.
Haviam algumas ataduras ainda do acidente; machucados não cicatrizados pela falta de reação dela, pensou enquanto dava a volta na cama.
Ao lado direito, sua mão estava livre.Meio sem jeito, o garoto levou suas mãos junto a dela, cobrindo-a, protegendo-a.Reparou então no rosto da garota, não havia dor ali, nem tristeza.Aliás, não havia nada.Aparentemente, nem uma alma.
Foi o pensamento que o invadiu naquele momento; fria, sem sentimentos e sem vida, como uma estátua. Um recipiente vazio. Onde estaria seu conteúdo?
Ainda segurando sua mão, ele aproximou seu rosto do dela, tinha esperança de que ela reagisse a proximidade, mas nada aconteceu. Seus lábios já estavam perto de seus ouvidos, então baixo, como que sussurrando para o coração suas palavras saíram envolvidas por amor:
- Queria ver seus olhos.Queria ver a vida em você, menina.
A mulher havia parado de chorar. Um ou dois copos de água com açúcar a acalmaram, juntamente com um comprimido de calmante e a ajuda do doutor.Ele, homem de bem, sentia muita pena daquela mulher que agora,praticamente, morava no hospital.Mais que isso, sentia simpatia por aquela mulher batalhadora que não perdia suas esperanças, mesmo sozinha, mesmo sem motivos para ainda as tê-la.
- Diga-me Dr. , como ela está? – foram as primeiras palavras a saírem de sua boca ao colocar o copo com água ao lado da janela de vidro.
- Srª, estamos fazendo todo o possível, porém ela não está respondendo aos tratamentos.Já tentamos tudo; remédios, alguns até perigosos, equipamentos modernos, terapias diversas, mas não ouve resposta.Temo que seu estado seja irreversível.
- Não, não pode ser. Ela vai acordar!
- Elena, escute: - pegou firmemente em seus braços e a vez encara-lo – já se passou mais de dois meses; e ela não reagiu a nada! Já passou o tempo em que seu coma era considerado reversível, é quase nula as chances dela voltar. Nós,médicos, não conseguimos achar um motivo para ela não acordar, todos exames foram feitos, e nada.Nada cientifico, nada médico, nada explica o porque de ela ainda não ter acordado. Está na hora de você começar a aceitar isso, por pior que seja, talvez ela não volte para casa.
Com essas palavras, sua fé morria um pouco mais.Não dava para agüentar tudo aquilo; o acidente; a perda de seu marido e agora sua filha,sua única filha.O que ela faria da vida sozinha? Não, ela não desistiria.
- Ainda há chances Dr. ?
- Poucas, devo dizer.
- Então não desistirei, estamos falando da minha filha. Não irei desistir! – sua voz saiu confiante e seu rosto severo, a melhor máscara que conseguia por naquele momento.
[...]
A tarde passava como todas as outras.Noah e Liah haviam passado um bom tempo sentados conversando sobre os mais diversos assuntos; música, livros,o lugar onde estavam...
Quando cansavam, ou simplesmente as palavras não eram mais necessárias, levantavam dos balanços , davam as mãos, e andavam sobre a neve fofa do parque; sem dizer muita coisa, apenas juntos.Apenas sentindo o calor de suas mãos entrelaçadas, e observando tudo ao seu redor.Era tudo perfeito.
Perfeito demais para ser real, Liah pensou uma ou duas vezes.
Um tempo atrás, não sabia bem quando, Noah estava longe em corpo e alma.Eles não se viam ou sentiam, apenas conversavam, pior que isso; ele não a amava.Ela se lembrava também das várias brigas que tiveram, de sua voz furiosa, se suas palavras ásperas, e do fim que haviam tomado.Havia passado dias olhando a foto dele em seu diário; os cabelos pretos sobre os olhos, a cara de bravo, e seus olhos negros brilhando...
Passado.
Agora ele caminhava ali , ao seu lado, de mãos dadas.Seu rosto não possuía mais ira, somente carisma.Sua voz era doce como mel, e as palavras melódicas como música.Ele não a magoaria, ela tinha certeza disso.
[...]
- Olá, vim visitar a Srt. Kennedy.
- Segundo quarto a direita nesse mesmo corredor, numero 402. – respondeu a enfermeira sem prestar atenção em quem lhe falava.
- Obrigado. – disse o garoto educadamente e saiu pelo corredor em direção ao quarto.
Estava sério, preocupado. Devia conhecer a garota a um bom tempo, alguns anos pelo menos. Andava imponente pelo corredor ,conseguindo os olhares de algumas garotas que aguardavam para serem examinadas na sala de espera.
Daqui 3 portas estaria perto dela; agora 2 ; depois 1... agora apenas A porta lhe separava dela.A mão estava na maçaneta, ainda hesitando abri-la.Percebeu o vidro que dava para o quarto, e foi até ele.
Lá estava ela.
Olhos fechados, a pele mais branca do que o normal, e aqueles aparelhos. Era demais para ele ver aquilo; como se cada agulha no corpo dela representasse uma em seu coração.Se sentia sufocado; sem se dar conta apoiou-se no vidro a sua frente e deixou as lágrimas caírem. Agora ele conseguia respirar; o que sufocava seus pulmões era o choro que vinha de dentro, forte, triste e impiedoso.
'Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva...' C.L.
O Amor
" O amor mais bonito é uma conta errada, uma exceção que confirma a regra, aquela coisa para a qual você havia utilizado a palavra nunca.O que eu tenho a ver com o seu passado, eu sou uma variável enlouquecida da sua vida "